Belém 2025: A COP da Ganância – O Oportunismo é a Verdadeira Amazônia do Brasil

Belém 2025: A COP da Ganância – O Oportunismo é a Verdadeira Amazônia do Brasil.

O Circo da COP 30 e a Tragicomédia Paraense



Belém, Pará. 2025. A cidade se arma para ser o centro do universo, a vitrine da sustentabilidade e da (hipotética) Amazônia que funciona. Mas a Amazônia que realmente pulsa, a que não aparece nos folders de marketing governamental, é a Amazônia da esperteza rápida. A COP 30 — essa grandiosa e cara encenação global — é a prova cabal da nossa moral falida.

Não se enganem com a pompa. Por trás da agenda de carbono zero e da defesa dos povos originários, o que realmente cheira forte é o velho e fedorento aroma de dinheiro fácil. E, nesta pátria de fachada, o dinheiro fácil é sempre sinônimo de oportunismo deslavado.

O cinismo é cristalino: hotéis, pousadas, e até mesmo apartamentos de fundos anunciados como “experiências de imersão”, viram seus preços de diária saltarem de R$ 150 para R$ 2.500. Um salto de mais de 1.500%. Isso não é inflação – termo chique para justificar a incompetência estatal. Trata-se de ganância pura, maquiada como "aproveitar o momento".

Sucesso para quem, cara pálida? O sucesso do anfitrião que esfolia o hóspede? O sucesso de uma gente que, historicamente, lamenta a falta de "chance na vida", mas quando a chance bate, ela veste a máscara do agiota e cobra a alma do cliente? É a manifestação mais clara do nosso ethos nacional.

O Elo Perdido: Da Viela ao Gabinete

Não sou ingênuo. O problema não é o lucro, é a falta absoluta de ética e de visão de longo prazo. É o pensamento de "agora ou nunca" que nos condena ao status quo eterno.

O vendedor de açaí que triplica o preço para o gringo na semana da conferência é o reflexo invertido do político que superfatura a obra de saneamento. Ambos operam sob a mesma filosofia: o Estado de direito é uma sugestão; o meu lucro é um imperativo.

Lamentamos que o Brasil seja um país de “castas”, que as oportunidades não chegam para todos. Mas quando a “oportunidade” se materializa, ela se transforma em uma licença para o abuso. É o cidadão comum, o "povo de bem" que, na primeira brecha, se porta exatamente como o corrupto que ele diz odiar.

Qual é a diferença moral entre o dono de um barraco que cobra de um jornalista europeu o equivalente a três meses de salário mínimo, e o ministro que desvia verba de uma licença ambiental? A escala, apenas a escala. O coração da malandragem é o mesmo: a falta de respeito pelo coletivo e a certeza da impunidade.

Se você me pergunta por que o Brasil não avança, a resposta está aí. O problema é cultural. É o DNA da especulação, da vida que é resolvida no jeitinho e na esperteza do momento. A COP 30 deveria ser a chance de Belém se firmar como polo turístico e sustentável. Em vez disso, será lembrada como a cidade onde o dono do motor de popa tentou cobrar o preço de um iate de luxo.



O Humanismo, o Lucro e a Vadiagem Ética

Virão os "defensores do livre mercado" para justificar o aumento: "é a lei da oferta e da procura!". Sim, é a lei da oferta e da procura quando aplicada com visão e ética. Neste caso, ela virou uma vadiagem ética, uma extorsão legalizada.

O humanismo não é contra o lucro. É contra a usura. É contra a ideia de que sua única chance de ascensão é esmagar a do seu vizinho, ou a do cliente que veio trazer prosperidade à sua região.

O que me incomoda é a sociedade aceitar isso como "jogada de mestre". Assim como aceitam que trucidar "suspeitos" seja o normal na segurança pública, aceitam que trucidar o consumidor seja o normal na economia. É a mesma falência de valores, a mesma banalização do respeito.

Essa mentalidade de "dar o bote" no turista nos coloca na eterna posição de país subdesenvolvido, de república de bananas. Nenhum país sério constrói uma economia baseada no golpe de mão, na especulação desenfreada de seis meses. A confiança se constrói com preços justos, serviços de qualidade e continuidade.

Mas, aqui, a continuidade é a palavra mais temida. Por que oferecer um bom serviço e preço justo para que o turista volte? Se você pode arrancar dez anos de lucro em uma semana? É a lógica do saque, não do investimento.

“Vão planejar uma operação para exterminar a concorrência da poderosa facção, enquanto abrem passagem para as milícias militarizadas…” – A economia do golpe em Belém não é muito diferente. O pequeno oportunista, ao cobrar o absurdo, "extermina" a chance de crescimento sustentável e abre passagem para que a narrativa do Brasil caótico e insustentável se solidifique.


O Grande Engano da Meritocracia Pós-Pandemia

Depois da pandemia, que para alguns foi um momento de reflexão, para muitos foi apenas uma aula intensiva de como explorar a escassez. A narrativa da meritocracia brasileira, já capenga, desaba por completo ao observarmos essa febre de preços.

A meritocracia, na sua leitura tupiniquim, não é sobre trabalhar mais ou melhor. É sobre ser mais esperto e ter menos escrúpulos. É a meritocracia do atravessador, do saqueador. Não há mérito em explorar uma situação de urgência. Há apenas oportunismo.

E o pior: essa gente, que é a primeira a reclamar do "sistema", do "governo" e da "falta de incentivo", é a primeira a sabotar a própria oportunidade que a conjuntura internacional lhes oferece. Querem ser ricos sem construir riqueza. Querem o status sem o trabalho e sem o compromisso ético que sustenta qualquer sociedade funcional.

Precisamos da presença do Estado, sim, mas não apenas com educação de "pé-de-meia". Precisamos de educação para a cidadania ética, para que as pessoas entendam que o ganho coletivo de uma conferência como a COP vale muito mais que o lucro individual e predatório de um único semestre. O Estado precisa não só coibir o crime, mas a ganância autofágica.

No fim das contas, a discrepância de preços em Belém não é um problema econômico local. É a radiografia moral de um país que se autodestrói. É a prova de que o inimigo do Brasil não está apenas na Esplanada, mas espalhado em cada esquina, esperando o próximo trem da alegria para dar o bote. A única solução que resta é o senso crítico. Porque a esperança, por aqui, virou só mais um artigo de luxo com preço superfaturado.



Em Tempo: O Placebo da Ação

O que as autoridades farão? Vão abrir a caixa perfumada das "soluções" instantâneas. Vão ameaçar multar, vão fazer notas de repúdio, talvez criem um Comitê de Ética da Precificação. Placebo!

A lição que fica é que, no Brasil, a oportunidade não gera prosperidade; gera apenas a chance de enriquecer rápido o suficiente para, em seguida, voltar a lamentar a falta de oportunidades.

E aí, qual é o jeito? Continuar apontando o dedo para essa farsa é o mínimo.

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