Quando Edite virou Antonia
Quando Edite virou Antonia: uma história real sobre nomes, perdas e silêncios
Anos atrás, quando eu morava em Fortaleza - CE, fui visitar um colega na casa dele — coisa simples, quase que rotineira. Mas naquele dia, o ar estava estranho. A tia dele — que eu conhecia como dona Edite — estava sentada no sofá, chorando copiosamente, uma intensidade que parecia não ter fim. A cena era forte, mas o ambiente ao redor tinha uma certa indiferença silenciosa. Estranhamente quieto.
Ela levantou a cabeça, com o rosto ainda molhado de lágrimas, me olhou como quem segura a dor com os dentes. Mas o que saiu não foi tristeza — foi raiva:
— Já foi. O enterro já aconteceu!
Dei um sorriso nervoso, desses que você não quer dar, mas o rosto entrega sozinho. Na verdade, sou uma pessoa de riso frouxo.
Tinha que ir embora, quanto antes. Sai sem me despedi.
Sai acelerando os passos e ao virar a esquina...
Soltei a gargalhada... Ri tanto que lagrimejei. Não que eu seja invencível ou indiferente a dor dos outros, mas...
De Edite à Antônia, da morte da mãe há 10 anos, o luto retroativo de alguém que deu fuga do interior para à capital e esqueceu a família - era muito para processar.
Essa história nunca me saiu da cabeça. Não porque foi triste — embora tenha sido. Mas porque, às vezes, o luto chega com atraso, como uma carta perdida que só encontra o destinatário anos depois. E quando chega, tudo muda: até o nome que você carrega.

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