Aventura em busca de adrenalina

Aventura em busca de adrenalina




Eu já fui jovem — embora nem me lembre exatamente quando foi isso.

Sim, fui jovem...
E carregava dentro de mim aquela sensação de imortalidade que só a juventude conhece. Achava que podia tudo.

Subi serras, caminhei por cachoeiras até encontrar nascentes, passei dois ou três dias “caçando” (mal e porcamente, confesso), acampei em praias, no meio do mato, e até atravessei o rio Guandu nadando.
Parecia que o mundo era pequeno demais para tanto fôlego e vontade de viver.

Mas hoje o dia amanheceu com uma notícia triste.

Juliana Marins, 26 anos, estava fazendo mochilão na Indonésia, curtindo o que parecia ser mais uma daquelas experiências transformadoras.
Infelizmente, caiu em um desfiladeiro durante uma trilha e não resistiu.
O que poderia ser apenas um acidente tornou-se ainda mais trágico diante do despreparo e da falta de estrutura local para socorrê-la.

Vi a comoção nas redes, na TV, nos jornais. Todo mundo torcendo por um final feliz.
Mas confesso: minha primeira reação foi raiva. Me perguntei: quem, em sã consciência, se mete em uma aventura dessas, sozinha… e logo na Indonésia?

Pouco depois, a ficha caiu.
Fechei os olhos e viajei no tempo.
Lembrei das minhas próprias “loucuras” — das vezes em que fui imprudente só porque sentia que precisava me provar, explorar, ir além. A juventude cobra isso de quem tem saúde, curiosidade e sonhos pulsando.

E ali, entre lembranças e arrependimentos, percebi: Juliana poderia ser minha filha, minha amiga, minha versão mais jovem.
A mesma coragem, a mesma sede de mundo.

A família perdeu uma guerreira. Uma pessoa que queria viver tudo, intensamente.
O luto é como uma mancha: não sai. Pode até desbotar, mas nunca desaparece por completo.
O universo, por outro lado, ganhou a energia de uma estrela que agora brilha em outro céu.

Existe algo quase contraditório nesse desejo de aventura.
É uma mistura de liberdade com risco, de superação com vulnerabilidade.
Quando somos jovens, achamos que nada pode nos atingir, que o perigo é sempre para os outros — até que a vida mostra o contrário.

Juliana não é apenas uma estatística.
É uma história, uma pessoa que sonhava alto, como tantos de nós já sonharam.

E o que aprendemos com isso?
Será que estamos conseguindo passar adiante nossas vivências, alertar sem parecer chatos?
Será que estamos ajudando os mais novos a reconhecer limites, sem apagar o brilho nos olhos?

Educar sobre os riscos sem apagar o entusiasmo de viver é um desafio.
A coragem precisa andar de mãos dadas com o cuidado. A sede de liberdade deve vir acompanhada de alguma consciência.

Juliana partiu como muitos sonhadores partem: com a mochila nas costas, o coração aberto, e os olhos focados em um horizonte só dela.
Seu corpo não resistiu, mas sua coragem fica.

Não devemos apontar o dedo. Devemos abrir os braços.
Devemos cuidar da juventude, não podar seus impulsos, mas ajudá-la a encontrar o equilíbrio entre o ímpeto e a prudência.

O mundo que Juliana quis explorar é o mesmo mundo que hoje sente sua ausência.
E, ainda assim, é um mundo melhor porque ela existiu.

Que sua memória não seja apenas lembrada com tristeza, mas sirva de inspiração para vivermos com mais presença, mais empatia e mais propósito.
Ela nos mostrou que viver de verdade também é se lançar — mas que, sempre que possível, devemos levar junto uma bússola, um mapa, e alguém que nos espere de volta.

Talvez o céu que ela buscava não estivesse acima das nuvens, mas dentro dela mesma.



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